
Por: Beatriz de Freitas, Eduarda Oliveira Incheski, Maria Bianca Sales e Silva, Seane Caroline de Oliveira e Suyanne Lacerda do Nascimento.
Resumo da proposta
A configuração geopolítica da América Latina no século XXI apresenta transformações estruturais que evidenciam a crescente complexidade das dinâmicas de segurança e poder. A região passa por um processo de reconfiguração marcado pela intensificação de ameaças não convencionais, sobretudo aquelas vinculadas ao crime organizado transnacional. Esse fenômeno tensiona as capacidades estatais e desafia o monopólio legítimo da força, tradicionalmente associado ao Estado moderno.
Historicamente percebido como um espaço periférico nas rotas do narcotráfico, o Equador experimentou uma rápida deterioração de suas condições de segurança. No começo de Abril de 2026, o governo de Daniel Noboa declarou um novo estado de exceção devido à violência crescente no país (Crisis Group, 2026), assim deixando claro a instabilidade na governança interna, na qual a convergência de vulnerabilidades institucionais, fatores econômicos e posição geográfica estratégica contribuíram para esse processo.
A inserção do país entre grandes produtores de cocaína e rotas marítimas internacionais favoreceu sua integração às cadeias globais ilícitas, o que impulsionou a expansão de organizações criminosas e aprofundou a fragilidade das instituições estatais (Rivera-Rhon; Bravo-Grijalva, 2020). Como resultado, observa-se a redefinição da violência interna em termos mais amplos, com a adoção de medidas excepcionais por parte do Estado. A classificação do cenário como conflito armado interno indica uma mudança qualitativa na natureza da crise, aproximando-a de dinâmicas associadas a conflitos contemporâneos complexos.
O presente relatório analisa o colapso institucional e a violência sistêmica no Equador, situando o país como um novo epicentro geopolítico do narcotráfico na América Latina. A investigação insere-se no campo das Relações Internacionais e da Geopolítica e busca compreender a interação entre dinâmicas domésticas e estruturas transnacionais que moldam o cenário equatoriano, abordando o crime organizado como ator relevante no Sistema Internacional contemporâneo, em geral, e na América Latina, em particular.
A análise desenvolvida fundamenta-se nos estudos sobre Guerras Híbridas (Andrew Korybko) e na perspectiva da Economia Política Internacional formulada por Robert Cox em “Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory” (1981), ao buscar compreender de que maneira a expansão do crime organizado transnacional no Equador ultrapassa a dimensão estritamente criminal e passa a operar como um fenômeno inserido nas dinâmicas contemporâneas de poder, conflito e reconfiguração estatal.
O relatório também examina as respostas implementadas pelo governo equatoriano a partir da centralidade assumida pela militarização da segurança pública, analisando como a adoção de estratégias predominantemente coercitivas se relaciona às dinâmicas contemporâneas de securitização e combate a ameaças híbridas em contextos de fragilidade institucional. A perspectiva de Cox (1981) permite compreender o caso equatoriano como resultado de transformações estruturais associadas à globalização econômica, à circulação transnacional de capital ilícito e à inserção periférica do Estado nas dinâmicas do Sistema Internacional, enquanto os estudos sobre Guerras Híbridas (Korybko, 2025) auxiliam na interpretação da atuação de organizações criminosas que combinam recursos militares, econômicos e informacionais para ampliar sua influência política e territorial. Dessa forma, a análise considera de que maneira o fortalecimento das medidas repressivas repercute sobre a efetividade operacional do Estado, sobre sua legitimidade institucional e sobre as condições sociais produzidas pela intensificação do uso da força como principal mecanismo de enfrentamento da violência organizada.
A relevância geopolítica do caso do Equador pode ser compreendida a partir de sua inserção estratégica nas rotas globais do narcotráfico, na medida em que o país se consolidou como um ponto central de escoamento de substâncias ilícitas destinadas a mercados internacionais, especialmente aqueles localizados na Europa e nos Estados Unidos, condição que favoreceu a atração e a instalação de organizações criminosas de alcance transnacional, interessadas em explorar vantagens logísticas, institucionais e geográficas associadas ao território equatoriano.
A presença desses atores amplia a complexidade do cenário interno ao intensificar disputas territoriais e ao transformar portos e corredores logísticos em espaços de competição contínua entre diferentes grupos, estabelecendo uma conexão direta entre dinâmicas locais de violência e estruturas globais de circulação de capital ilícito, o que contribui para a incorporação do Equador em redes internacionais de poder vinculadas ao crime organizado.
A dimensão regional da crise manifesta-se por meio dos efeitos de transbordamento associados à expansão das atividades criminosas e ao aumento da violência, processo que impacta países vizinhos ao estimular deslocamentos populacionais forçados, pressionar sistemas migratórios e facilitar a difusão de práticas ilícitas para outros contextos nacionais, ampliando o alcance das dinâmicas observadas no interior do território equatoriano.
A mobilização de potências externas e de organizações internacionais em resposta à crise evidencia a importância estratégica do país no contexto hemisférico, uma vez que o envolvimento crescente de atores internacionais está diretamente relacionado à necessidade de conter fluxos ilícitos, estabilizar a região e preservar interesses geopolíticos mais amplos, o que reforça a pertinência de analisar o caso a partir de uma perspectiva que considere a interação entre níveis doméstico e internacional.
O recorte temporal deste estudo compreende o período entre 2020 e 2026, intervalo marcado por eventos que evidenciam a rápida deterioração das condições de segurança e governança no Equador, iniciando-se com o assassinato de Jorge Luis Zambrano, conhecido como “Rasquiña”, líder do grupo Los Choneros, em dezembro de 2020, fato que desencadeou a fragmentação das principais organizações criminosas do país e intensificou as disputas armadas pelo controle das rotas de narcotráfico e dos sistemas prisionais. A partir de 2021, o Equador passou a registrar massacres carcerários, com centenas de mortos em confrontos entre facções rivais, enquanto as taxas de homicídio cresceram de forma acelerada, transformando o país em um dos mais violentos da América Latina (CIDH, 2025). Em 2024, após a fuga de Adolfo Macías, o “Fito”, líder dos Choneros, e a realização de ataques coordenados contra instituições públicas, meios de comunicação e agentes de segurança, o governo de Daniel Noboa declarou oficialmente a existência de um “conflito armado interno”, ampliando a participação das Forças Armadas no combate às organizações criminosas. Entre 2025 e 2026, a continuidade da escalada da violência, o aumento das denúncias de violações de direitos humanos e o aprofundamento da cooperação militar entre Equador e Estados Unidos consolidaram um cenário de crise institucional e instabilidade geopolítica associado à reorganização do crime organizado transnacional no país.
No plano espacial, o estudo concentra-se no território equatoriano ao enfatizar regiões estratégicas vinculadas à dinâmica do narcotráfico, especialmente áreas costeiras e zonas portuárias que desempenham funções centrais na logística das redes ilícitas, constituindo pontos de articulação entre produção, transporte e distribuição de substâncias ilegais. A análise incorpora ainda as conexões transfronteiriças e marítimas que integram o Equador às cadeias globais do crime organizado, considerando fluxos que ultrapassam limites nacionais e articulam diferentes espaços geográficos, o que possibilita situar o fenômeno em um contexto regional e internacional mais amplo.
Buscamos compreender de que maneira a atuação do crime organizado transnacional interfere no funcionamento das instituições estatais e contribui para a reconfiguração das dinâmicas de poder no Equador, considerando a falência dos mecanismos tradicionais de segurança pública, a inserção do país nas cadeias globais ilícitas e a crescente articulação entre atores domésticos e redes transnacionais vinculadas ao narcotráfico. Para a interpretação desse processo, o estudo mobiliza as categorias analíticas propostas por Robert Cox, especialmente os conceitos de forças sociais, formas de Estado e ordens mundiais, utilizados para compreender como transformações estruturais da economia política internacional influenciam a reorganização das dinâmicas de autoridade, coerção e poder no contexto equatoriano.
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