Qual o legado da Guerra ao Terror para a posição hegemônica dos EUA e para a ordem global?
A presente análise tem como objetivo examinar a relação entre a Guerra Global ao Terror e a hegemonia dos Estados Unidos, buscando compreender se a estratégia de combate ao terrorismo ainda traduz a posição hegemônica norte-americana no sistema internacional contemporâneo.

Qual o Legado da Guerra ao Terror para a Posição Hegemônica dos
EUA e para a Ordem Global?
Por: Amanda Fonseca Souza, Sofia Romualdo Galati e Stella Oliveira
1. Sumário Executivo
O ataque coordenado pelo grupo terrorista Al-Qaeda contra os Estados Unidos, utilizando aviões sequestrados como armas em 11 de Setembro de 2001 foi responsável por alterar radicalmente a política externa e de segurança dos norte-americanos.
O foco passou a ser o combate ao extremismo islâmico em nível global, por meio do desmantelamento de organizações terroristas e da derrubada de regimes que fornecessem apoio ou abrigo a tais organizações. Esses objetivos levaram à criação da campanha norte-americana militar, política, legal e de inteligência nomeada de “Guerra Global ao Terror” (LOIOLA, 2022).
A Guerra Global ao Terror se disseminou em várias operações e conflitos armados ao redor do mundo, principalmente no Oriente Médio, região marcada, por exemplo, pela Guerra do Afeganistão (2001-2021) e a Guerra do Iraque (2003-2011).
Apesar de ter obtidos resultados concretos, como por exemplo, a eliminação de grandes líderes terroristas, como Osama bin Laden (Al-Qaeda) e Abu Bakr al-Baghdadi (Estado Islâmico), a campanha trouxe também adversidades frutos das intervenções norte-americanas no Oriente Médio, incluindo revoltas nacionais, corrupção, erosão do estado de direito, e em especial, o aumento do ressentimento contra os Estados Unidos, intensificando a narrativa antiamericanista (SMILJANIC, 2025).
Com os resultados adversos supracitados, pode-se entender que mesmo que a Guerra Global ao Terror tenha sido criada para preservar a hegemonia dos Estados Unidos, a estratégia também é um dos fatores que enfraquecem a ordem internacional guiada pelos norte-americanos.
Nesse contexto, de acordo com estimativas do “Costs of War Project”, da Brown University, essas intervenções resultaram em mais de 940 mil mortes diretas e no deslocamento forçado de aproximadamente 38 milhões de pessoas. Ademais, mais de 7 mil militares norte-americanos morreram em operações de combate, enquanto o impacto sobre populações civis é ainda mais significativo no Iraque, Afeganistão e Paquistão, onde estima-se que cerca de 300 mil civis tenham sido mortos em decorrência das hostilidades, o que reforça as profundas implicações estratégicas, humanas e políticas associadas à condução da Guerra ao Terror.
A motivação para essa análise parte do conceito de “janela média” proposto por Smiljanić (2025), que busca compreender como fatores incluindo instabilidade regional, radicalização e perda de confiança internacional se acumulam em um intervalo de tempo e tornam visíveis as fragilidades diplomáticas entre os Estados.
2. Recorte Contextual
O presente Policy Briefing, trata de identificar por meio de três análises contrafactuais distintas, isto é, abordagens hipotéticas para formular novos cenários sobre um determinado fenômeno, se a Guerra Global ao Terror ainda traduz a hegemonia norte-americana dentro de um recorte temporal de 5 a 10 anos futuros.
Para tanto, os cenários contrafactuais escolhidos foram os seguintes: adoção da estratégia de “Offshore Balancing” pelos Estados Unidos, desgaste bilateral das relações entre os Estados Unidos e outros países do Oriente Médio e o senso de “ownership” presente na região.
3. Análise ACAC
3.1 Estratégia de Offshore Balancing:
Atualmente, é notável que uma série de fatores ameaçam a ainda dominante hegemonia liberal dos Estados Unidos, como a crescente influência de seus rivais China e Rússia, polarizações políticas extremas em vários países do mundo e o questionamento da legitimidade do multilateralismo.
Com isso, o foco dos Estados Unidos não é mais a região do Oriente Médio, mas sim a contenção do avanço russo e, principalmente chinês, o que se confirma, por exemplo, pela retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão em 2021, (MARQUES, s.d) e da retirada de 90 mil soldados do Iraque em 2009, segundo a Folha de São Paulo (2009). Tais ações demonstram a diminuição da intervenção direta do EUA na região.
Seguindo esse raciocínio, pode-se adotar um contrafactual de uma retirada proposital dos Estados Unidos no Oriente Médio com o fim de poupar recursos para a preservação de sua hegemonia e da ordem multilateral liberal assim como impedir a ascensão de seus rivais, sobretudo em certas regiões, como na Ásia-Pacífico.
Para esse fim, aposta-se na estratégia de “Offshore Balancing”, proposta pelos autores neorrealistas Mearsheimer e Walt em 2016. Tal tática tem como objetivo central a proteção do Ocidente e manter os Estados Unidos como único e principal hegemon vigente. Para tanto, os EUA deviam intervir minimamente em outras nações para preservar recursos e consequentemente, manter seus status quo, haja vista que são vistos como atores “indispensáveis” para a sustentação e manutenção da ordem mundial.
Intervenções devem ser rápidas e ocorrer quando apenas houver a ameaça iminente do aumento da influência de outra potência. Salvo esses casos, aliados como a Arábia Saudita, deveriam carregar a responsabilidade de manter a estabilidade regional (MEARSHEIMER;WALT, 2016). Logo, os Estados Unidos deveriam se limitar a pequenas intervenções estritamente necessárias no Oriente Médio, para ainda manter sua influência na região.
Contudo, a retirada aumentaria o vácuo de poder, abrindo espaço para o crescimento da China e Rússia através de suas estratégias de influência: A China com sua iniciativa “Belt and Road” e a Rússia com o fornecimento de segurança, energia e de armas. Outros cenários possíveis para esse contrafactual nos próximos 5 a 10 anos, seria o enfraquecimento de algumas alianças que os EUA possuem no Oriente Médio, principalmente com as monarquias do Golfo, que apesar de aliadas dos EUA, possuem acordos com China e Rússia.
A debandada norte-americana pode demonstrar que o Estado não é um garantidor confiável de segurança, imagem que pode se disseminar para aliados em outras regiões, como a Coréia do Sul no continente asiático, levando esses países a se alinharem com outras potências.
Ainda, a diminuição da presença militar dos EUA no Oriente Médio, consequentemente resultaria no enfraquecimento da capacidade do país em intervir e intermediar conflitos, o que poderia intensificar guerras já existentes, como a em Gaza e resultar na eclosão de novas disputas.
Em suma, pode-se entender que através do contrafactual embasado na estratégia de Offshore Balancing, a hegemonia intervencionista dos EUA se transforma em uma hegemonia focada em competir pelo poder e influências com outras nações rivais, fazendo com que o Oriente Médio perdesse o foco que ganhou com a Guerra Global ao Terror.
Nesse sentido, essa estratégia militar e política já não mais traduz os objetivos atuais dos Estados Unidos, se limitando a ser uma ameaça secundária que deveria ser administrada por seus aliados regionais.
3.2 Desgaste das Relações Bilaterais EUA-Oriente Médio
O desgaste nas relações bilaterais entre os Estados Unidos e o Oriente Médio já não pode ser entendido apenas como uma sequência de episódios isolados, mas como parte de uma transformação estrutural na estratégia global norte-americana. Estudos recentes indicam que, desde o pivot to Asia, Washington passou a redistribuir prioridades para responder à ascensão chinesa e reduzir sua dependência energética do Golfo (RAND Corporation, 2022). Esse realinhamento estratégico foi percebido pelos países árabes como um sinal de retração, reforçado pela hesitação dos EUA em crises como Síria e pela retirada do Afeganistão.
Além disso, evidências mostram que China e Rússia ampliaram sua presença econômica, militar e diplomática na região (RAND, 2022; SAGE, 2025). Como consequência, países como Emirados Árabes Unidos passaram a adotar estratégias de hedging e autonomia estratégica, diversificando parcerias sem abandonar os EUA (REZAEI, 2024).
A percepção de retirada ou recuo dos EUA, reforçada por eventos como a retirada do Afeganistão e respostas insuficientes a ameaças regionais, gerou insegurança entre aliados tradicionais, incentivando-os a buscar mais autonomia ou parcerias alternativas (WASHINGTON INSTITUTE, 2025; GULF INTERNATIONAL FORUM, 2025).
Além disso, o surgimento de atores regionais e globais alternativos, como Irã, Turquia, Rússia e a expansão da China, contribuiu para a redefinição das alianças e para um aumento da complexidade geopolítica na região (GULF INTERNATIONAL FORUM, 2025). Além disso, os fracassos militares e intervenções controversas dos EUA em conflitos como Iraque e Afeganistão comprometeram sua credibilidade, mostrando que interesses de democratização, mudança de regimes ou segurança nem sempre se traduzem em resultados concretos (GULF INTERNATIONAL FORUM, 2025). A redução da interdependência energética, possibilitada pela produção doméstica de gás de xisto, e os desalinhamentos em políticas regionais e valores, particularmente em direitos humanos e prioridades estratégicas, completam o quadro de desgaste das relações bilaterais, tornando os Estados Unidos menos influentes e confiáveis para seus aliados do Golfo (WASHINGTON INSTITUTE, 2025).
Nesse contexto, pode-se imaginar um cenário contrafactual em que a retração dos Estados Unidos continue e se aprofunde. A percepção de “recuo estratégico” se consolidaria entre os países do Golfo, levando-os a buscar alternativas de segurança e cooperação com novas potências, como China, Rússia e Turquia que têm ampliado sua atuação na região (GULF INTERNATIONAL FORUM, 2025).
A China fortaleceria laços econômicos e políticos, enquanto a Rússia expandiria sua presença militar e influência diplomática, preenchendo o vácuo deixado por Washington.
Com a redução da dependência norte-americana do petróleo do Golfo, devido ao avanço da produção doméstica de gás de xisto, o vínculo energético, que por décadas sustentou a aliança EUA – Oriente Médio, perderia centralidade. Essa menor interdependência econômica, somada a divergências sobre direitos humanos valores democráticos, contribuiria para a deterioração da imagem dos EUA como um parceiro confiável e indispensável (WASHINGTON INSTITUTE, 2025).
Em médio prazo, esse processo resultaria em uma reconfiguração das alianças regionais, os Estados do Golfo tenderiam a adotar uma postura mais autônoma, equilibrando suas relações entre Washington e outras potências globais. O vácuo de poder deixado pelos EUA poderia intensificar rivalidades locais, como entre Irã e Arábia Saudita, além de enfraquecer a capacidade de intervenção norte-americana em conflitos prolongados, como os da Síria, do Iêmen e da Faixa de Gaza (GULF INTERNATIONAL FORUM, 2025).
3.3 Ownership no Oriente Médio:
Nos próximos cinco a dez anos, um cenário contrafactual plausível para o Oriente Médio indica a consolidação de um ownership regional em segurança e contraterrorismo, impulsionado por gastos militares crescentes, que já ultrapassam 6% do PIB em países como a Arábia Saudita, e pela diversificação de parcerias estratégicas com potências extrarregionais.
Esse movimento tende a reduzir a centralidade operacional dos Estados Unidos, cuja presença militar na região vem diminuindo desde meados da década de 2010.
A regionalização do contraterrorismo resultaria em coalizões flexíveis lideradas por atores como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Catar e Irã, cada qual operando segundo prioridades internas e rivalidades próprias.
O resultado esperado é uma arquitetura de segurança fragmentada, marcada por respostas assimétricas, variando de operações militares intensivas a mecanismos de cooptação, especialmente em zonas críticas como Síria, Iraque e Líbano, onde a governança permanece volátil.
Nesse quadro, a redução do papel norte-americano abriria espaço para maior inserção de Rússia e China, que já ampliam sua presença por meio de acordos, investimentos energéticos e vendas de armamentos. Acordos esses que, inclusive, são firmados com aliados regionais dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita.
O efeito sistêmico seria a transição para uma ordem mais policêntrica, caracterizada por múltiplos polos de influência e menor capacidade de coordenação centralizada.
Internamente, a autonomia ampliada poderia reforçar a capacidade estatal de condução de políticas de segurança, mas também elevar riscos de instrumentalização do contraterrorismo para fins de controle político, agravando desigualdades e criando incentivos à radicalização. Grupos jihadistas tenderiam a explorar a ausência de coordenação multinacional e as fissuras geopolíticas para expandir território e recrutamento.
Em síntese, o fortalecimento do ownership regional transformaria a Guerra Global ao Terror em um arranjo descentralizado e competitivo, redefinindo o equilíbrio de poder e aumentando a imprevisibilidade estratégica no Oriente Médio.
4. Recomendações
Diante desse cenário, este policy brief recomenda:
- Reorientar a estratégia norte-americana de segurança no Oriente Médio para um modelo de engajamento seletivo, priorizando missões específicas de contraterrorismo, interoperabilidade e capacitação de parceiros, em vez de operações de longo prazo ou intervenções de mudança de regime;
- Fortalecer mecanismos multilaterais e regionais de coordenação, incentivando fóruns de segurança que incluam monarquias do Golfo, Turquia, Jordânia e, quando politicamente viável, canais técnicos envolvendo o Irã, reduzindo o risco de respostas assimétricas e conflitos por procuração;
- Criar instrumentos de responsabilização e monitoramento para evitar o uso instrumental do contraterrorismo por governos locais, vinculando assistência militar e inteligência a indicadores mínimos de governança, transparência e respeito a direitos civis;
- Aumentar a diplomacia preventiva em áreas críticas como Síria, Iraque e Líbano, articulando esforços com ONU, UE e atores regionais para limitar a expansão de grupos jihadistas em zonas de governança fragmentada;
- Integrar a competição estratégica com China e Rússia ao cálculo de segurança regional, sobretudo para evitar que a retração dos Estados Unidos produza vácuos preenchidos exclusivamente por potências rivais;
- Investir em instrumentos não militares de estabilização, incluindo programas de desenvolvimento local, reconstrução institucional e redução de vulnerabilidades socioeconômicas que alimentam ciclos de radicalização.
Em suma, preservar a influência norte-americana e reduzir riscos de instabilidade no Oriente Médio exige abandonar a lógica expansiva da Guerra Global ao Terror e adotar uma estratégia adaptativa, de baixo custo, multilateral e orientada para resiliência institucional regional.
Nesse sentido, as estratégias de intervenção utilizadas durante a Guerra Global ao Terror não mais correspondem às necessidades hegemônicas e atuais dos Estados Unidos, diferentemente da tática do pivô para a Ásia, que traduz as mudanças do Sistema Internacional, como a crescente expansão chinesa.
Logo, há uma tendência que o foco dos norte-americanos na Ásia aumente cada vez mais nos próximos anos e como já mencionado anteriormente, deixando o Oriente Médio em segundo plano.
Essa reconfiguração não apenas responde às transformações geopolíticas emergentes, mas também aumenta a capacidade de contenção de ameaças transnacionais em um ambiente internacional cada vez mais policêntrico.
Referências
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DORELL, Evgenia; DALE, Catherine; JENKINS, Brian. China, Russia, and the United States in the Middle East: The Changing Balance of Influence. Santa Monica: RAND Corporation, 2022. Disponível em:
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FEIERSTEIN, Gerald M.; SAAB, Bilal Y.; YOUNG, Karen E. US–Gulf Relations at a Crossroads: Time for a Recalibration. Washington, D.C.: Middle East Institute, abr. 2022. Disponível em: https://www.mei.edu/publications/us-gulf-relations-crossroads-time-recalibration. Acesso em: 3 nov. 2025.
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LOIOLA, João Pedro Dias. A política externa de contraterrorismo da Austrália e Nova Zelândia no pós 11 de setembro de 2001: uma análise comparada da macrossecuritização do terrorismo. 2022. 77 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Poços de Caldas, 2022.
MARQUES, Alberto. A desmobilização americana na guerra do afeganistão. Monografia (Aperfeiçoamento de Oficiais) – Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, Rio de Janeiro, [s.d].
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