Por: Ana Julia Almeida, Carla Sorrana, Daniele Rocha, Isabella de França e Jamilly Honorato.
Resumo da proposta
A intersecção entre uma geografia física restrita, a distribuição de recursos naturais finitos e a competição pelo poder estatal encontra sua expressão máxima de vulnerabilidade estratégica nos chamados pontos de estrangulamento marítimos, chokepoints. Na arquitetura da segurança energética global, o Estreito de Ormuz figura indiscutivelmente como a passagem mais crítica do sistema internacional. De acordo com dados oficiais da U.S. Energy Information Administration (EIA, 2024), este corredor atua como o duto logístico principal pelo qual transitam diariamente cerca de 20 milhões de barris de petróleo. Esse volume quantitativo representa 20% de todo o consumo global, além de absorver parcela massiva do comércio mundial de Gás Natural Liquefeito (GNL), evidenciando a dependência inegociável da economia internacional quanto à estabilidade desta região.
Imagem 1: Volume de trânsito de petróleo e líquidos através do Estreito de Ormuz de 2014 a 2018

Para compreender a centralidade deste cenário, é imperativo observar seus condicionantes estruturais. Nunes e Visentini (2018, p. 84) ressaltam, de forma indireta, que a relevância das passagens marítimas no Oriente Médio transcende a logística comercial, atuando como o verdadeiro termômetro da segurança energética para as potências industrializadas. Aprofundando essa premissa sob o prisma geográfico, Jessika Rucks (2016) estabelece em sua dissertação que a própria topografia do canal confere uma inegável vantagem tática ao Estado costeiro. A restrição de manobrabilidade inerente às águas rasas transforma o local em um ambiente hostil para esquadras convencionais. Ao detalhar como as forças iranianas capitalizam sobre essa exata limitação física para neutralizar a superioridade tecnológica de seus adversários e impor uma guerra de atrito, Rucks argumenta que: (…) o estreito por si só já limita a capacidade de navegação das embarcações, dessa maneira as ações assimétricas da Guarda revolucionária aumentam os riscos, pois as embarcações precisam reduzir a velocidade aumentando a chance de ser alvos de ataques e roubos de lanchas e barcos. (RUCKS, 2016, p. 56).
Imagem 2: Mapa do Ponto de Estrangulamento (Chokepoint) do Estreito de Ormuz

Esse risco estrutural latente, fundamentado na assimetria geográfica, materializou-se criticamente no primeiro trimestre de 2026. Impulsionadas pela escalada bélica entre os Estados Unidos, o Estado de Israel e o Irã, as forças iranianas aplicaram a doutrina de “negação do mar” (sea denial) – uma estratégia naval e militar que visa restringir um inimigo a usufruir determinada área para fins comerciais ou militares – impondo um bloqueio de fato à região. Ao analisar essa ruptura da normalidade, o pesquisador Jim Krane (2026) atesta que a paralisação gerou um déficit agudo no fornecimento global, estimado entre 14,5 a 16,5 milhões de barris por dia. Krane evidencia, ainda, a ineficácia logística de rotas alternativas terrestres (oleodutos sauditas e mirandenses), as quais não possuem capacidade para escoar o volume retido. Diagnosticando o peso geopolítico dessa interdição, o autor conclui que o conflito encerra uma era da diplomacia americana no Golfo.
Para ele, a ineficácia de Washington em combater as táticas assimétricas iranianas decreta a falência definitiva do pacto estrutural que sustentou a região por décadas, mostrando que: Os eventos de março de 2026 demonstraram as limitações do aparato de segurança dos EUA em proteger as vias comerciais marítimas de forma ininterrupta, determinando o colapso do acordo histórico de ‘petróleo por segurança’ estabelecido em 1945 com as monarquias do Golfo. (KRANE, 2026).
Os impactos logístico-militares irradiam-se velozmente, atestando uma severa crise de interdependência. Karen E. Young (2026) explora essa dimensão indiretamente ao detalhar como o conflito reconfigurou de forma predatória o poder financeiro no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), uma organização regional política, social e econômica entre os Estados Árabes do Golfo. A autora evidencia que as monarquias petroleiras se tornaram reféns da retaliação assimétrica, projetando prejuízos monumentais aos projetos soberanos da península. Para materializar essa asfixia, Young aponta a estimativa empírica de perdas de “US$20 bilhões anuais” (YOUNG, 2026) impostas apenas ao Catar, decorrentes dos ataques diretos à infraestrutura de exportação de GNL.
Foi exatamente o ineditismo e a agressividade desses últimos estopins que catapultaram o Estreito de Ormuz para o centro do debate midiático internacional nos meses recentes. A escalada vertiginosa retirou o tema dos fóruns estritamente militares e o projetou nas manchetes civis, gerando um alerta generalizado sobre a fragilidade das cadeias de suprimento. Analisando essa superexposição, evidencia-se que a cobertura jornalística reflete o pânico do mercado, uma vez que a crise “expõe o sistema energético global” (VITTO, 2026) a um escrutínio público implacável. Esses episódios trazem reflexões e potenciais impactos para o mercado global que forçam as potências a confrontarem sua extrema vulnerabilidade logística.
Imagem 3: Impacto e volatilidade dos preços do barril de petróleo frente a crises no Golfo

O presente relatório tem como tema central a análise do Estreito de Ormuz não apenas como um gargalo logístico, mas como o principal “tabuleiro da segurança energética” global, no qual se desenrola o confronto direto entre Estados Unidos, Israel e a República Islâmica do Irã. Tendo em vista o colapso da normalidade regional delineado no enquadramento, o trabalho explora a dinâmica de como o Irã, em resposta à pressão militar e política do eixo Washington-TelAviv, instrumentaliza a topografia confinada do canal como uma arma de guerra assimétrica e coerção econômica. O estudo debruça-se sobre os desdobramentos desse embate trilateral, investigando como a adoção de táticas de “negação do mar” por Teerã invalida as garantias históricas de proteção norte-americanas, afeta diretamente os cálculos de segurança israelenses e projeta instabilidade política e econômica em escala planetária.
O estreito de Ormuz se apresenta como uma das rotas energéticas mais importantes do Mundo, visto que é uma via indispensável para para os países do Oriente Médio produtores de petróleo como: Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e outros.
A área é conhecida por chokepoint, isto é, ponto de estrangulamento, justamente por grande parte do trânsito de energia precisar passar pelo estreito. Dessa maneira, qualquer fechamento em Ormuz restringiria o comércio e impactaria fortemente a economia mundial, ou seja, os atuais ataques orquestrados pelos EUA com a contribuição de Israel ao Irã não são apenas um problema localizado na região, mas podem gerar impactos econômicos globais.
Nesse contexto, os atuais desdobramentos envolvendo o Estreito de Ormuz não podem ser dissociados da criação de um imaginário coletivo do Irã como uma grande ameaça ao Oriente Médio (e consequentemente ao Ocidente) que se consolidou inicialmente com o discurso do “Eixo do Mal” em 2002, expressado por George Bush — presidente dos EUA na época — em que o Irã é retratado como um financiador e exportador do terrorismo, bem como um desenvolvedor de armas nucleares de distruição em massa e portanto representam uma ameaça global. O presidente reitera que os Estados Unidos seriam os responsáveis (atráves do plano de segurança nacional americana e da doutrina Bush) por fazer o uso de todos os meios disponíveis para derrotar a ameaça do terrorismo global. Sob a perspectiva da doutrina Bush, a política externa norte-americana se consolidou em três alicerces estratégicos: 1) “as guerras preventivas” com o objetivo de eliminar ameaças por meio do uso da força e de ações militares. 2) a “guerra ao terror” com o foco em combater o terrorismo global e os Estados que financiavam esses grupos extremistas. 3) o fomento da democracia liberal, que defendia a intervenção militar como estratégia para impor regimes democráticos no Oriente Médio. Com base nessa lógica, foi se conquistando um espaço narrativo em que os Estados Unidos era o ator central para a manutenção da paz e estabilidade na região e concomitantemente projetou o Irã transnacionalmente como uma ameaça nuclear e no âmbito doméstico como um regime repressor.
Após décadas essa narrativa prevalece e é uma das principais justificativas para as intervenções e ataques norte-americanos e israelenses ao Irã no atual conflito (evidenciado por meio do fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã em fevereiro de 2026) que se iniciou com a finalidade de destruir instalações nucleares iranianas, visto que o Trump afirmou que o Irã estava enriquecendo urânio acima dos limites permitidos por tratados como o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), no entanto, análises realizadas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), apontam que não havia indícios que o Irã estava de fato próximo de fabricar uma bomba atômica. Desse modo, a questão nuclear se manifesta como uma estratégia geopolítica, uma vez que o desenvolvimento nuclear iraniano representa uma ameaça direta a Israel que detém a hegemonia nuclear regional, de acordo com a organização Arms Control Association. Ademais, o Irã é responsável pelo financiamento e fornecimento de armas para os grupos Hamas e Hezbollah que promovem ataques às ocupações israelenses na Palestina e no Sul do Líbano. Nesse sentido, uma potencialização de sua capacidade militar e nuclear pode intensificar as investidas por parte dessas organizações e aumentar exponencialmente o risco à segurança de Israel. Os EUA enxergam o programa nuclear iraniano como o maior perigo do Oriente Médio, porque pode modificar o equilíbrio de poder na região que é sustentado principalmente pelos próprios estadunidenses e por Israel (parceiro histórico dos EUA) que usam de suas influências para exercer domínio político e econômico sobre a área. Dessa forma, a classificação do Irã como o vilão do Oriente Médio acaba por impactar na decisão dos próprios países da região que fazem alianças com Israel e EUA sob a ideia de defesa mútua assegurada.
Em suma, a doutrina Bush e a categorização do Irã como a maior ameaça regional é fundamental para a estratégia americana de permanecer como uma hegemonia global, na medida em que os os EUA tentam legitimar sua presença militar no Golfo. Assim que os ataques e provocações iniciaram, o Irã respondeu rapidamente contra-atacando Israel e lançou mísseis em outros países da região parceiros dos EUA, também utilizou da geografia como estratégia ao fechar o Estreito de Ormuz para forçar ambos os Estados a recuarem.
DELIMITAÇÃO TEMPORAL E ESPACIAL
O estudo concentra-se geograficamente no Estreito de Ormuz, abrangendo as águas territoriais e as zonas econômicas exclusivas dos Estados costeiros limítrofes (República Islâmica do Irã e Sultanato de Omã). A análise estende-se, organicamente, às áreas de transbordamento tático no Golfo Pérsico e no Mar Arábico, observando o impacto logístico sobre o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) e as zonas de projeção de poder naval e aéreo operadas pelas forças dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio.
A análise prospectiva e conjuntural restringe-se ao ano de 2026, com foco analítico especial no seu primeiro semestre. Esse recorte marca a fase aguda da crise, compreendendo o estopim da guerra aberta entre a coalizão EUA-Israel e o “Eixo da Resistência” iraniano, culminando na efetiva aplicação das táticas de bloqueio naval que desestabilizaram as cadeias globais de suprimento no período.
Diante da vulnerabilidade estrutural desse tabuleiro energético e do arcabouço geopolítico apresentado, a principal indagação que norteia e estrutura a argumentação deste relatório é: No contexto da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã em 2026, de que maneira a instrumentalização do Estreito de Ormuz por Teerã (por meio de táticas de guerra assimétrica “e negação do mar”) reconfigura a balança de poder no Oriente Médio e afeta a segurança energética e a estabilidade econômica do sistema internacional?
Faça o download do Policy Brief
Assine
Cadastre seu endereço de e-mail para receber novidades e atualizações.
