
Por: Giovanna Lopes, Giovanna Franco, Gustavo Amaro, Maria Fernanda Fernandes e Roberto Torres.
Resumo da proposta
Durante a década de 1990, após a assinatura dos Acordos de Oslo, Ramallah passou a se consolidar como a capital de facto da Palestina, assumindo as responsabilidades político-administrativas do território, uma mudança particularmente abrupta para uma cidade pouco habitada da Cisjordânia. Nesse contexto, Ramallah recebeu novos investimentos internacionais de infraestrutura para abrigar os políticos da recém-criada Autoridade Nacional Palestina (ANP) – órgão administrativo interino estabelecido a partir dos Acordos de Oslo, passando a exercer funções limitadas de autogoverno e administração estatal, sem representar, contudo, a constituição de um Estado palestino, uma vez que persiste formas de ocupação, controle territorial e fragmentação impostas por Israel (AUGENSTEIN, SALHAB, 2025, p. 286-287). Além disso, a cidade tornou-se um pólo de concentração de organizações não governamentais (ONGs), impulsionada pelos grandes fluxos de ajuda internacional (TARAKI, 2008).
Diante do aumento da presença de organizações internacionais em Ramallah, observa-se também a difusão dos princípios associados à agenda neoliberal através, entre outros fatores, da promoção do empreendedorismo feminino como estratégia de autonomia e de ascensão econômica. Contudo, essas iniciativas apresentam vínculos com os interesses israelenses, tornando-se uma outra forma de exercer controle e influência na região, já que, ao priorizar soluções econômicas individuais às mulheres, desvia-se o foco dos problemas estruturais que afetam diariamente suas vidas, sobretudo a condição permanente de ocupação (HUBERMAN; SANTOS, 2026).
A relevância geopolítica deste estudo reside no fato de que estratégias de desenvolvimento promovidas na Palestina, sobretudo no período pós-Oslo, passaram por um intenso processo de transformação, tornando organizações e movimentos menos politizados e interligados às condicionalidades impostas por agentes estrangeiros, frequentemente articuladas aos interesses do poder israelense (KAYALI, 2024). Além disso, os movimentos das palestinas também foram impactados por essas mudanças, que contribuíram para a fragmentação e desmobilização de diversas lutas sociais, ao tornar iniciativas vinculadas às mulheres em mecanismos mais burocráticos e alinhados às dinâmicas do financiamento internacional (JAD, 2010).
A partir dos elementos anteriormente discutidos, este relatório tem como objetivo analisar o papel das ONGs na promoção da ascensão econômica das mulheres palestinas na cidade de Ramallah no pós-Oslo, especialmente no período 2020-2025, recorte temporal que corresponde a um contexto de aumento das tensões político-diplomáticas na Palestina, como a apresentação do Plano Trump (2020), o episódio de Sheikh Jarrah em maio de 2021, os ataques de 7 de outubro de 2023 e a intensificação das restrições e operações militares nos territórios palestinos. Para isso, serão examinadas duas ONGs criadas após os Acordos de Oslo: a Business Women Forum Palestine (BWF) e a ASALA – Palestinian Businesswomen’s Association, que contam com financiamento de elites internacionais para promoverem a profissionalização dessas mulheres e a inserção no sistema de “paz neoliberal”, o que Cox (1987) atribui como ponto importante para a manutenção do sistema hegemônico estadunidense ao estabelecer a “hegemonia por consenso”, inicialmente nas instituições e órgãos sociais transnacionais e em decorrência nas mulheres palestinas.
Nesse sentido, busca-se investigar em que medida os programas de empreendedorismo feminino implementados pela BWF e pela ASALA, sob a influência de financiadores internacionais, são moldados por agendas externas e operam como instrumentos de despolitização das demandas de busca por soberania territorial, retorno de refugiados e a construção de um Estado com direitos civis, por parte das mulheres palestinas no cenário pós-Oslo (SAAFIN, 2022).
Por fim, com o objetivo de situar a análise em uma perspectiva geopolítica mais crítica, este trabalho fundamenta-se na literatura sobre Guerras Híbridas de acadêmicos como Colin S. Gray (2007), Ana Penido e Miguel Enrique Stédile (2021), e de Concepções de Hegemonia, desenvolvida por Robert Cox (1981) e José Luís Fiori (2005).
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